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Soneto Archive

M.i.l.i.m.é.t.r.i.c.o

Imagine que as palavras são tijolos. Você, um operário a organizá-los. Se você conseguir juntar inspiração e métrica - como quem mistura um bom cimento - terá feito um soneto.

Ou quase, afinal, no soneto, tudo é planejado, calculado em fórmula perfeita. São 14 versos, divididos em dois quartetos (grupos de quatro versos) e dois tercetos (três versos). Os versos também seguem uma métrica, numa verdadeira harmonia interna.

Mas não basta matemática. O acabamento - sonoro - é fundamental para a construção. Pra garantir a sonoridade, a gente usa rimas geralmente organizadas em esquemas que mais parecem gabarito de vestibular ABBA - ABBA - CDCD, ou ainda, AABB AABB CDDC.

E veja, todo o esforço é capaz de render obras-primas, seja na arquitetura ou na poesia.

 

Um soneto de Petrarca:

III

Se a minha vida do áspero tormento
E tanto afã puder se defender,
Que por força da idade eu chegue a ver
Da luz do vosso olhar o embaciamento,
 
E o áureo cabelo se tornar de argento,
E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento,
 
E tanta audácia há de me dar o Amor,
Que vos direi dos martírios que guardo,
Dos anos, dias, horas o amargor.
 
Se o tempo é contra este querer em que ardo,
Que não o seja tal que à minha dor
Negue o socorro de um suspiro tardo.

 

 

Outro de Shakespeare:

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.  

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