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Definições Archive
M.i.l.i.m.é.t.r.i.c.o
- julho 22, 2008 7:34 PM
- Definições | Poesia de cada dia | Ritmo | Soneto
Imagine que as palavras são tijolos. Você, um operário a organizá-los. Se você conseguir juntar inspiração e métrica - como quem mistura um bom cimento - terá feito um soneto.
Ou quase, afinal, no soneto, tudo é planejado, calculado em fórmula perfeita. São 14 versos, divididos em dois quartetos (grupos de quatro versos) e dois tercetos (três versos). Os versos também seguem uma métrica, numa verdadeira harmonia interna.
Mas não basta matemática. O acabamento - sonoro - é fundamental para a construção. Pra garantir a sonoridade, a gente usa rimas geralmente organizadas em esquemas que mais parecem gabarito de vestibular ABBA - ABBA - CDCD, ou ainda, AABB AABB CDDC.
E veja, todo o esforço é capaz de render obras-primas, seja na arquitetura ou na poesia.
Um soneto de Petrarca:
III
Se a minha vida do áspero tormento
E tanto afã puder se defender,
Que por força da idade eu chegue a ver
Da luz do vosso olhar o embaciamento,
E o áureo cabelo se tornar de argento,
E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento,
E tanta audácia há de me dar o Amor,
Que vos direi dos martírios que guardo,
Dos anos, dias, horas o amargor.
Se o tempo é contra este querer em que ardo,
Que não o seja tal que à minha dor
Negue o socorro de um suspiro tardo.
Outro de Shakespeare:
Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensaMais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.
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Um pouco de teoria não faz mal a ninguém...
- março 10, 2008 11:13 PM
- Definições | Poesia de cada dia

Você já deve ter se perguntado: afinal o que é poesia? Apenas um bocado de palavras bonitas não deve ser.
Alguns sabem bem que poesia é mais do que uma forma textual de ritmo e comprimento exatos. Mas então, como algo tão universal quanto a poesia, tão presente na existência humana, pode ser definida em um único conceito?!
Para compreendermos uma denominação com tanta abrangência, necessitamos retornar ao tempo. As origens do termo poesia vêm do grego, poesis, originada de poiein, que significa criar, imaginar. Os latinos conheciam a poesia como oractio vincta, linguagem travada e versificada, diferente de oractio prorsa, conhecida como um discurso construído de modo direto e livre.
Há quem pense, que poesia é tudo o que se expressa em versos (cada linha do poema é um verso). Identificar a poesia é, contudo, algo mais interior que exterior. Pensando nisso, estudiosos germânicos chegaram à outra forma sedutora de obviar a questão: a poesia seria o núcleo residual e essencial de toda e qualquer manifestação artística. Desta forma, a poesia estaria presente na música, nas artes visuais, na dança, na arquitetura e todos os artistas se tornariam poetas. O pensamento não estava errado, o problema é que, desta forma, a poesia seria eliminada como forma singular de arte, reduzindo a si todas as manifestações artísticas e desindividualizando-as (ufa!).
Uma maneira mais abrangente e nem por isso menos adequada é a que envolve os conceitos do sujeito (o "eu") e do objeto (o mundo ao redor). A partir da observação da realidade, o poeta pode se dirigir para dentro de sua realidade interior, procurando o que o revela enquanto ser criativo e o que o distingue dos semelhantes.
Desta forma, a poesia percorre dois eixos: é o espelho do mundo exterior refletido no mundo interior (do poeta) e é o espelho do mundo exterior refletido no mundo interior (do leitor).
A poesia deve ainda sugerir mais do que definir, para isso, necessita das palavras sem sua roupagem gramatical e lógica. A palavra poética deve levar em conta o ritmo, a sonoridade, sem se afastar por completo do sentido. Falar de palavra é falar de texto. Daí adentramos no âmbito do poema, a manifestação textual da poesia, seu corpo transcrito em palavras.
Sim, poesia e poema são coisas distintas, mas que estão constantemente interligadas. Só que isso já é assunto para outra conversa.
Cabe a nós descobrir e cultivar outras manifestações da poesia que não se restrinjam no poema. Poesia é uma chance de olhar para dentro de si. De alimentar a transformação, num constante estímulo-resposta ao planeta.
Experimente.
O que é poesia pra você?
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