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Voa liberdade

caminho_pb_03.jpgTodo poeta já tentou definir a liberdade. Mais do que defini-la, tentou e tenta conjugá-la no tempo presente, algo tão próximo ao que se chama de vida.

A liberdade é uma criança. Dessas que saem correndo pela grama, sem se preocuparem se faz chuva ou sol. Para essas, qualquer perigo é tão somente uma bolha-de-sabão e o medo é quase invisível - multicor.

É o olhar de curiosidade que estende a mão à liberdade, o olhar sem limites, o olhar sem fôrmas ou moldes. Não é o saber tudo, pois isso é impossível. É o estar à beira do precipício, mas nem assim deixar de olhar para a imensidão. É dar o primeiro passo sem ter onde se apoiar.

O pensador indiano Jiddhu Krishnamurti (quem não conhece sua obra, pode saber um pouco mais na penúltima edição de Vida Simples) dizia que liberdade é ser o que você é. Para clichê, não? Não, nada tão direto e homogêneo. Complicado, talvez porque uma porção de forças atue sobre nós, como se tentasse nos roubar a liberdade - aquilo que lá no fundo, bem no fundo, queremos tanto ser (livres!). A sociedade, um pai que vive dizendo o que você deve fazer, uma tia com conselhos furados, sua personalidade indecisa.

É nessa hora que tudo o que você precisa é observar o mundo e olhar para si mesmo.  Como uma criança. Sem preconceitos, sem moralismo: encare mesmo.

[Ao longo da nossa infância, nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial - algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isto muito antes de aprendermos a pensar. - Mundo de Sofia - Jostein Gaarder]

Quem sabe você consiga arrumar as saletas internas, organizar os sonhos e descobrir uma essência tão sua e tão indescritível.

[... Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda... - Cecília Meirelles -Romanceiro da Inconfidência]

Não é fácil. Como todo o poeta, a gente está sempre entre ser livre e prender-se às eternas coisas do mundo. Procurar a liberdade é sua função poética: espelho do mundo e espelho de si mesmo.

caminho_pb_04.jpgTudo é uma questão de escolha. O que não dá é deixar a escolha sufocar a gente mesmo.

 

ENSAIO SOBRE A LIBERDADE
[por Rosane Magali Martins]

Quisera eu libertar-lhe os grilhões,
Curar-lhe os ferimentos do viver
Para que em liberdade, ousasses voar.
 
Mas que posso eu, trancafiada em mim?
Como aprisionada, invento a liberdade
Para que em meu descanso, possa um só querer.
 
Quisera eu saciar-nos os desejos contidos
Perdermo-nos em estradas não descobertas
Para que quiséssemos apenas ser eu e você
 
Por um momento, ouço sua música
Que me embriaga e enleva os sentidos
E traduzem viáveis os meus dias de solidão.
 
Falta-me o ar, nas noites,
Falta-me o corpo rítmico
O meu coração
 
Utópicas tentativas de salvar-nos
das prisões edificadas por nós mesmos
 
Sou minotauro,
Sou labirinto
Sou imperfeição
Que me impede de traçar
um só ensaio de liberdade.

Comentários:2

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Rosane março 18, 2008 7:21 PM

Suave como o vento, colorido como a pipa, seu blog é poético e nos faz respirar por uma janela de poesias. Parabéns pela iniciativa e agradeço a escolha do meu poema para o ensaio sobre liberdade. Quanto mais a desejamos, menos próximos dela... Um toque de pluma... Abraço, Rosane,

Lorreine Beatrice março 21, 2008 7:00 PM

Oi, Rosane!
Obrigada por sua visita e pelo "empréstimo" do poema.
Abraços

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