- março 18, 2008 10:27 AM
- Poesia de cada dia | Relicário
Todo poeta já tentou definir a liberdade. Mais do que defini-la, tentou e tenta conjugá-la no tempo presente, algo tão próximo ao que se chama de vida.
A liberdade é uma criança. Dessas que saem correndo pela grama, sem se preocuparem se faz chuva ou sol. Para essas, qualquer perigo é tão somente uma bolha-de-sabão e o medo é quase invisível - multicor.
É o olhar de curiosidade que estende a mão à liberdade, o olhar sem limites, o olhar sem fôrmas ou moldes. Não é o saber tudo, pois isso é impossível. É o estar à beira do precipício, mas nem assim deixar de olhar para a imensidão. É dar o primeiro passo sem ter onde se apoiar.
O pensador indiano Jiddhu Krishnamurti (quem não conhece sua obra, pode saber um pouco mais na penúltima edição de Vida Simples) dizia que liberdade é ser o que você é. Para clichê, não? Não, nada tão direto e homogêneo. Complicado, talvez porque uma porção de forças atue sobre nós, como se tentasse nos roubar a liberdade - aquilo que lá no fundo, bem no fundo, queremos tanto ser (livres!). A sociedade, um pai que vive dizendo o que você deve fazer, uma tia com conselhos furados, sua personalidade indecisa.
É nessa hora que tudo o que você precisa é observar o mundo e olhar para si mesmo. Como uma criança. Sem preconceitos, sem moralismo: encare mesmo.
[Ao longo da nossa infância, nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial - algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isto muito antes de aprendermos a pensar. - Mundo de Sofia - Jostein Gaarder]
Quem sabe você consiga arrumar as saletas internas, organizar os sonhos e descobrir uma essência tão sua e tão indescritível.
[... Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda... - Cecília Meirelles -Romanceiro da Inconfidência]
Não é fácil. Como todo o poeta, a gente está sempre entre ser livre e prender-se às eternas coisas do mundo. Procurar a liberdade é sua função poética: espelho do mundo e espelho de si mesmo.
Tudo é uma questão de escolha. O que não dá é deixar a escolha sufocar a gente mesmo.
ENSAIO SOBRE A LIBERDADE
[por Rosane Magali Martins]
Quisera eu libertar-lhe os grilhões,
Curar-lhe os ferimentos do viver
Para que em liberdade, ousasses voar.
Mas que posso eu, trancafiada em mim?
Como aprisionada, invento a liberdade
Para que em meu descanso, possa um só querer.
Quisera eu saciar-nos os desejos contidos
Perdermo-nos em estradas não descobertas
Para que quiséssemos apenas ser eu e você
Por um momento, ouço sua música
Que me embriaga e enleva os sentidos
E traduzem viáveis os meus dias de solidão.
Falta-me o ar, nas noites,
Falta-me o corpo rítmico
O meu coração
Utópicas tentativas de salvar-nos
das prisões edificadas por nós mesmos
Sou minotauro,
Sou labirinto
Sou imperfeição
Que me impede de traçar
um só ensaio de liberdade.
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