- março 23, 2008 5:41 PM
- Poesia de cada dia | Ritmo
O que não existe sozinho?
Nuvem sem céu.
Riacho sem água.
Poema sem ritmo.
Parece que todo poema tem uma espécie de melodia que dê aos ouvidos outro sentido que as palavras sejam incapazes de entregar sozinhas.
Essa melodia não precisa ser sempre harmônica. Pode ser rígida e cadenciada, como um bom poema de Cabral ou fluente como águas que não voltam, no melhor estilo Cecília:
Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
As palavras, matéria-prima do texto, são o que rege a sinfonia. Por vezes, apenas a repetição (seja de palavras inteiras, consoantes ou fonemas), já causa efeito, quase vento:
Ritmo
[Mário Quintana]
Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
Musicalidade não faltará caso a rima apareça, com sua graça, em um poema. A rima não deixa de ser uma repetição, que se concentra na última sílaba. Ela vive neste trecho de Traduzir-se, de Ferreira Gullar:
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Há ainda a chamada métrica, um jeito de contar as sílabas do poema e montá-lo em uma mesma estrutura de versos e estrofes. É igual a um quebra-cabeça de notas musicais. Vinícius fazia isso em músicas e sonetos, como o de Separação:
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
O que não podemos esquecer é que existe sim um ritmo inerente ao poema. Mas há o ritmo do leitor. Pode ser o de sua voz, de seu pensamento, o da sua compreensão. É como se cada leitor pudesse recompor o poema dentro de si.
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