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Manifestando-se

Aparentemente no mesmo ritmo tranqüilo que seu nome - como uma pausa para o café, para olhar pela janela ou para um súbito pensamento - este blog vem recebendo várias colaborações por email. 

Uma delas foi a de Luciano dos Santos Alves, quase um manifesto pela poesia viva, já publicado aqui.

Poesia. Devia ser proibida de ser escrita e assim ficar aprisionada em uma reles folha de papel. Antes de ser eternamente escravizada na celulose deveria ela ser livre no mundo. Nenhum poeta poderia escrever a poesia que não viveu que não sonhou. Ninguém poderia ler uma poesia se não estivesse disposto a completá-la, a dividir com a sua própria existência, sua realidade, sua vida.
Quintana dizia que os livros de poesia deviam vir com várias páginas em branco e espaços grandes entre as frases, para que as crianças pudessem desenhar e pintar nas folhas e nos espaços. Eu, porém defendo que não se escrevam mais livros de poesia. Pois os livros são sonhos prontos, emoções fabricadas por alguém que as viveu ou as sonhou. Acabemos com os livros de poesia. E que cada um seja livre para fazer de sua vida um poema um romance ou simplesmente um conto de fadas.

 

 

Isso me lembrou um outro manifesto, de Tiago de Mello Neto [escrito em Santiago do Chile, abril de 1964]

Valeu a pena conferir: http://www.youtube.com/watch?v=XylbBRdiRdI

 

ESTATUTO DO HOMEM
   (Ato Institucional Permanente)
 
                                          A Carlos Heitor Cony
 
    Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira. 
  
   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 
  
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança. 
  
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.
 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino. 
  
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa. 
  
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 
  
   Artigo VII 

   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo. 
  
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor. 
  
   Artigo IX 

   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura. 
  
   Artigo X 

   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco. 
  
   Artigo XI 

   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã. 
  
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.
 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
  
Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou. 
  
   Artigo Final

   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.

Comentários:2

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Fábio Ricardo março 17, 2008 7:32 PM

Concordo com o texto do Luciano, mas ainda concordo mais com Quintana, citado por ele. O slivros podem ser feitos, pois farão mais pessoas viverem e sonharem poesias. Pior do que aprisionar uma poesia, é não dar uma chance a ela para que possa encantar o mundo.

Lorreine Beatrice março 17, 2008 11:47 PM

É verdade, Fábio. Isso me lembra bastante aquele poema em que Quintana diz que "os poemas são pássaros que chegam, não se sabe de onde e pousam no livro que lês [...] e olhas então para essas tuas duas mãos vazias, no maravilhado encanto de saber que o alimento deles já estava em ti".
Essa idéia da poesia já estar na vida e na essência de cada um de nós.
Obrigada pela visita, garoto! Até a próxima!

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