- março 12, 2008 10:45 AM
- Poesia de cada dia
Quando vou a escolas, conversar com crianças de 6, 7, 8 anos, costumo perguntar a elas qual o gosto mais gostoso que existe. As respostas, é claro, percorrem os evidentes caminhos do paladar: chocolate, brigadeiro, macarrão, sorvete, batata-frita.
É neste momento que desperto olhinhos curiosos quando digo que as palavras também têm gosto. Gosto?! Isso mesmo, as palavras têm gosto, forma, música e cor, dependendo da boca que as diz ou da mente que as lê.
Quando criança descobri isso.
Gostava das palavras que estavam na prateleira mais alta da estante - fora do meu alcance e, por isso mesmo, mais interessantes.
Vertigem soava-me como palavra lilás, com um leve sabor doce que logo ganhava o ar, transformando-se apenas em aroma. Rompante me era parecido o efeito, apesar do gosto mais forte e amargo... A forma lembrava uma flecha, sempre que eu fechava os olhos e pronunciava rom-pan-te. Solstício era palavra solta, sem início nem fim e que deixava um sabor bom na boca, com aquela vontade de quero mais. Com suas consoantes cadenciadas, pirulito era brincadeira de bate-bate pra mim.
As palavras eram bonecas e espaçonaves, com cores e expressões que me permitiam viajar por sensações desconhecidas - sensações trazidas nos entremeios das letras. Era o começo do poetar.
Poesia tem dessas brincadeiras e é preciso ser um pouco criança pra perceber que as palavras não se gastam, desde que se invente novos jeitos de brincar.
E você, já pensou em brincar com palavras?
Comece tirando da gaveta as palavras que você não usa há tempo, aquelas que você não sabe mais que cor têm. Combine-as com as cotidianas e olhe-se no espelho para ver que sensações elas lhe trazem. Se fica inverno ou verão. Se são fortes ou fracas. Diga. Diga uma palavra azul que traga frio e combine com outra que seja vento.
Qual é a palavra mais gostosa pra você?
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