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março 2008 Archive

Poesia nos Reclames

Na rota das intertextualidades, há sempre discursos que se cruzam ou passam a caminhar juntos. Não diferente é a relação entre publicidade e poesia.

Antes mesmo de existirem as primeiras agências no Brasil, poetas já eram contratados pelos corretores de anúncios - profissionais que faziam as mediações entre os anunciantes e os meios.

Casemiro de Abreu (sim, o de Meus 8 Anos), Hermes Fontes e Olavo Bilac eram alguns desses pré-publicitários e podem ser considerados os precursores da redação publicitária do Brasil.

Na época, eles fizeram um ótimo trabalho, colocando pitadas de criatividade em textos que mais pareciam nossos classificados atuais. Afinal, a publicidade do início do século XX era assim, reflexo de seu mercado-alvo, apostando mais na informação que na persuasão.

Até hoje certos recursos da linguagem poética servem de inspiração para a publicidade, especialmente quando o apelo é emocional. 

A campanha de lançamento do carro Ford EcoSport, de 2003, usa um poema (adaptado) de Thiago de Mello Neto, para vender o conceito de que "uma vida de liberdade e aventura começa aqui".

Folheto_EcoSport.jpg Criados pela JWT, os anúncios traziam o "Instituto de sua nova vida", inspirado em "Estatuto do Homem".

Artigo I: Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive às terças-feiras mais cinzentas, tem o direito de converter-se em manhãs de domingo.

Artigo II: Fica decretado que, a partir deste instante, as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde.

Artigo III: A palavra liberdade será suprimida dos dicionários. A partir deste instante será algo vivo, como o fogo e o mar.

 

Em 2008, o EcoSport voltou a trazer doses de poesia em sua campanha, chamada de o Novo Mundo. O texto diz mais ou menos assim:

No meu mundo, os fios são galhos. Hidratante é nascente. Televisão é aquário e toda estrela é cadente.

A calçada é grama. O vento faz ciranda. Trânsito é cardume. E todo sonho anda.

Muito prazer, eu sou o novo Ford EcoSport 2008.

DSC00872.JPG

DSC00868.JPGDe recurso criativo a motivo de encantamento.

A poesia sobrevive à evolução do mundo com toda a graça, ritmo e sentimento.

Composição

O que não existe sozinho?
piano_menor.jpgNuvem sem céu.
Riacho sem água.
Poema sem ritmo.

Parece que todo poema tem uma espécie de melodia que dê aos ouvidos outro sentido que as palavras sejam incapazes de entregar sozinhas.

Essa melodia não precisa ser sempre harmônica. Pode ser rígida e cadenciada, como um bom poema de Cabral ou fluente como águas que não voltam, no melhor estilo Cecília:

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.

As palavras, matéria-prima do texto, são o que rege a sinfonia. Por vezes, apenas a repetição (seja de palavras inteiras, consoantes ou fonemas), já causa efeito, quase vento:

Ritmo 
[Mário Quintana]
 
Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
 
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes

Musicalidade não faltará caso a rima apareça, com sua graça, em um poema. A rima não deixa de ser uma repetição, que se concentra na última sílaba. Ela vive neste trecho de Traduzir-se, de Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Há ainda a chamada métrica, um jeito de contar as sílabas do poema e montá-lo em uma mesma estrutura de versos e estrofes. É igual a um quebra-cabeça de notas musicais. Vinícius fazia isso em músicas e sonetos, como o de Separação:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

O que não podemos esquecer é que existe sim um ritmo inerente ao poema. Mas há o ritmo do leitor. Pode ser o de sua voz, de seu pensamento, o da sua compreensão. É como se cada leitor pudesse recompor o poema dentro de si.

Tudo é uma questão de olhar

A velha história do copo meio cheio ou meio vazio retrata bem esta idéia. Não adianta subir em uma árvore, deitar-se no chão ou virar de cabeça pra baixo, se o seu jeito de olhar o mundo continuar o mesmo. Manuel Bandeira já dizia: "aprendi com meu filho de 10 anos que poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi". "As coisas que nunca vi" podem ser bem comuns e fazerem parte do cotidiano, mas, de alguma forma, nunca foram percebidas.

Volta e meia, quando falo com alunos sobre poesia, eles me perguntam de onde vem a inspiração. Respondo: Do mundo, oras. E digo mais: todo tema pode dar um bom poema. O que faz a diferença é esse "olhar". 

Há uma cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos (clique aqui e assista) que retrata muito bem essa noção. Mais do que entender que poesia são outras formas de ver o mundo, é preciso ter uma espécie de liberdade (desprender-se dos aparentes limites mesmo) para conseguir olhar adiante. Lembra daquele papo de que liberdade é uma criança? Aí está.

Você já descobriu algo hoje? Tente olhar ao redor com mais atenção que, com certeza, você vai reparar.

 

Ignorando as fronteiras do tempo e espaço, a poesia é um meio incomparável de compreensão intercultural. Este é um trecho do blog de Andréa Motta, sobre o Dia Mundial da Poesia (hoje!). Vale a pena conferir aqui.

Voa liberdade

caminho_pb_03.jpgTodo poeta já tentou definir a liberdade. Mais do que defini-la, tentou e tenta conjugá-la no tempo presente, algo tão próximo ao que se chama de vida.

A liberdade é uma criança. Dessas que saem correndo pela grama, sem se preocuparem se faz chuva ou sol. Para essas, qualquer perigo é tão somente uma bolha-de-sabão e o medo é quase invisível - multicor.

É o olhar de curiosidade que estende a mão à liberdade, o olhar sem limites, o olhar sem fôrmas ou moldes. Não é o saber tudo, pois isso é impossível. É o estar à beira do precipício, mas nem assim deixar de olhar para a imensidão. É dar o primeiro passo sem ter onde se apoiar.

O pensador indiano Jiddhu Krishnamurti (quem não conhece sua obra, pode saber um pouco mais na penúltima edição de Vida Simples) dizia que liberdade é ser o que você é. Para clichê, não? Não, nada tão direto e homogêneo. Complicado, talvez porque uma porção de forças atue sobre nós, como se tentasse nos roubar a liberdade - aquilo que lá no fundo, bem no fundo, queremos tanto ser (livres!). A sociedade, um pai que vive dizendo o que você deve fazer, uma tia com conselhos furados, sua personalidade indecisa.

É nessa hora que tudo o que você precisa é observar o mundo e olhar para si mesmo.  Como uma criança. Sem preconceitos, sem moralismo: encare mesmo.

[Ao longo da nossa infância, nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial - algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isto muito antes de aprendermos a pensar. - Mundo de Sofia - Jostein Gaarder]

Quem sabe você consiga arrumar as saletas internas, organizar os sonhos e descobrir uma essência tão sua e tão indescritível.

[... Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda... - Cecília Meirelles -Romanceiro da Inconfidência]

Não é fácil. Como todo o poeta, a gente está sempre entre ser livre e prender-se às eternas coisas do mundo. Procurar a liberdade é sua função poética: espelho do mundo e espelho de si mesmo.

caminho_pb_04.jpgTudo é uma questão de escolha. O que não dá é deixar a escolha sufocar a gente mesmo.

 

ENSAIO SOBRE A LIBERDADE
[por Rosane Magali Martins]

Quisera eu libertar-lhe os grilhões,
Curar-lhe os ferimentos do viver
Para que em liberdade, ousasses voar.
 
Mas que posso eu, trancafiada em mim?
Como aprisionada, invento a liberdade
Para que em meu descanso, possa um só querer.
 
Quisera eu saciar-nos os desejos contidos
Perdermo-nos em estradas não descobertas
Para que quiséssemos apenas ser eu e você
 
Por um momento, ouço sua música
Que me embriaga e enleva os sentidos
E traduzem viáveis os meus dias de solidão.
 
Falta-me o ar, nas noites,
Falta-me o corpo rítmico
O meu coração
 
Utópicas tentativas de salvar-nos
das prisões edificadas por nós mesmos
 
Sou minotauro,
Sou labirinto
Sou imperfeição
Que me impede de traçar
um só ensaio de liberdade.

Manifestando-se

Aparentemente no mesmo ritmo tranqüilo que seu nome - como uma pausa para o café, para olhar pela janela ou para um súbito pensamento - este blog vem recebendo várias colaborações por email. 

Uma delas foi a de Luciano dos Santos Alves, quase um manifesto pela poesia viva, já publicado aqui.

Poesia. Devia ser proibida de ser escrita e assim ficar aprisionada em uma reles folha de papel. Antes de ser eternamente escravizada na celulose deveria ela ser livre no mundo. Nenhum poeta poderia escrever a poesia que não viveu que não sonhou. Ninguém poderia ler uma poesia se não estivesse disposto a completá-la, a dividir com a sua própria existência, sua realidade, sua vida.
Quintana dizia que os livros de poesia deviam vir com várias páginas em branco e espaços grandes entre as frases, para que as crianças pudessem desenhar e pintar nas folhas e nos espaços. Eu, porém defendo que não se escrevam mais livros de poesia. Pois os livros são sonhos prontos, emoções fabricadas por alguém que as viveu ou as sonhou. Acabemos com os livros de poesia. E que cada um seja livre para fazer de sua vida um poema um romance ou simplesmente um conto de fadas.

 

 

Isso me lembrou um outro manifesto, de Tiago de Mello Neto [escrito em Santiago do Chile, abril de 1964]

Valeu a pena conferir: http://www.youtube.com/watch?v=XylbBRdiRdI

 

ESTATUTO DO HOMEM
   (Ato Institucional Permanente)
 
                                          A Carlos Heitor Cony
 
    Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira. 
  
   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 
  
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança. 
  
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.
 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino. 
  
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa. 
  
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 
  
   Artigo VII 

   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo. 
  
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor. 
  
   Artigo IX 

   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura. 
  
   Artigo X 

   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco. 
  
   Artigo XI 

   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã. 
  
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.
 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
  
Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou. 
  
   Artigo Final

   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.

Palavras do agora

flor do vento.jpgUm pássaro brincando numa poça d'água. Um gato espreguiçando-se no telhado. Um raio de sol agraciando a flor na manhã. Instantes que passam despercebidos pelo dia-a-dia, mas que, quando observados, despertam em nós uma vontade de registrá-los de forma mais definitiva do que na frágil memória das retinas.

Um das maneiras mais típicas de fotografar uma imagem, quando se pretende usar as palavras, é o haicai. De origem oriental, o haicai é muito mais que uma manifestação textual, é uma espécie de meditação que faz nossa atenção se voltar para a percepção do presente e nada além. Se na meditação tradicional, a atenção está focada na respiração, no haicai ela se volta (quase sempre) para a natureza. Um exercício que acaba por nos despertar para os pequenos encantos da vida e para momentos de rara e simples beleza, como neste exemplo de José Neres Reis:

Clara luz da lua
dança nas poças d'água
com o vento suave.

Enquanto a forma desses micropoemas é composta por 17 sílabas métricas, divididas em 3 versos (versos são as linhas do poema), o conteúdo está sempre relacionado a algo físico marcado pelo momento presente, transmitindo uma noção de efemeridade. O haicai, também chamado de haiku (em japonês), é despido de sentimentalismos e emoções. Traja unicamente a expressão sensória do momento, retratando uma experiência. 

Na tradição japonesa, os haicais devem expressar a transitoriedade da vida, expressão que é evidenciada através do uso de termos referentes às estações do ano, os chamados kigos. Escrito por Isnelda Weise, o haicai a seguir revela elementos que nos transportam à primavera:

belas borboletas
de jardim em jardim pousam
sobre a flor: poema

A tradição de retratar as belezas das estações do ano a partir dos haicais iniciou-se com Matsuo Bashô (1644-1696), guerreiro samurai que abandonou tudo para cair na estrada e viver o presente (um verdadeiro presente a sua própria alma). Para Bashô, fazer haicais era quase como respirar, um estilo de vida baseado na forma inspiradora de contemplar a natureza.

No Brasil, o haicai também possui admiradores e criadores ávidos, com manifestações que vão desde as formas tradicionais às contemporâneas, que não seguem a métrica e ampliam as possibilidades temáticas, como neste exemplo de Millor Fernandes:

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

O haicai é exatamente assim, retrata a exatidão do momento.

Preciosidades

  • por Lorreine Beatrice
  • março 15, 2008 6:38 PM
  • Relicário

  Você já deve ter percebido que as coisas mais preciosas da vida não podem ser simplesmente contabilizadas em números ou mensuradas em resultados.

 No lançamento de Relicário, que aconteceu na última quinta-feira, tive a certeza de que certas conquistas só valem à pena, quando compartilhadas com quem a gente mais gosta.

É inevitável não agradecer à Fundação Cultural de Blumenau, através do Fundo Municipal de Cultural, que viabilizou o projeto.

Ao Shopping Neumarkt, especialmente ao Departamento de Marketing, que permitiu e apoiou a exposição CataVersos.

A todos os amigos que estiveram presentes (faço questão de citar nomes): Amanda e Bruno, Silvonete e família, Lisa, Mário, Thaís, Clagisa, Daniela, Fernando, Professora Apolônia, Carol e sua querida mãe. Ao pessoal da Modus;Org (DJ, Otávio, Vanessa, Bruno, André e Carol), escritores, artistas e conhecidos.

 

DSC00792.jpgAos que não estiveram presentes, mas enviaram palavras de apoio e incentivo, em especial: Grace, Muri e Professor Chivanga.

De tudo, fica a certeza de que a vida compartilhada com pessoas queridas é muito mais repleta de poesia. 

 

 

Agradecimentos a todos os meios de comunicação que divulgaram o evento: Santa, Folha de Blumenau, RBS TV, Rádio CBN, Jornal Expressão, TudoCom, Portal da Propaganda, AcontecendoAqui e Revista Tendenzen.  

Jornada Poética

Dizem que a arte deve ir onde o povo está. Foi por isso que a Sociedade Escritores de Blumenau resolveu, em pleno Dia Nacional da Poesia (leia-se hoje!), tornar essa manifestação artística algo pulsante em diversos pontos de Blumenau.
Às sete horas da manhã, alguns poetas reuniram-se na Praça da Poesia, próxima à prefeitura municipal para declamar ver versos de Lindolf Bell e Cecília Meirelles, com o Rio Itajaí de pano de fundo.
Muitos outros poemas, de diversos autores brasileiros e internacionais, serão declamados até o fim das 12 horas de poesia.

Confira abaixo o etinerário do recital.

Recital 12 horas de Poesia


Promoção da Sociedade Escritores de Blumenau
Apoio da Fundação Cultural de Blumenau

07:00h - Praça da Poesia
08:00h - Garrafas Poéticas na Ponte de Ferro
09:00h - FURB - Campus 1
10:00h - EBM Machado de Assis e Rádio Nereu
11:00h - Escadaria da Matriz
12:00h - Jornal do Almoço RBS 
12:00h - Expresso
13:00h - Refeitório da Empresa Brandes Engenharia
14:00h - Jardim das Artes (Kuntsgarten)
15:00h - Rádio Nereu
16:00h - Escola 
17:00h - Biblioteca Fritz Müller
17:30h - Bosque Fundação Cultural de Blumenau 
18:00h - Terminal de ônibus
19:00h - Sarau na Fundação Cultural de Blumenau
19:30h - Auditório Edith Gaertner - Palestra "POESIA - A TERAPIA DOS ESCOLHIIDOS "- Joaquim Monks
20:00h - TV Galega - Programa Arte e Cultura - Ivo Hadlich - Eliomar Russi

E você pode contribuir, encontrando-se com o grupo em alguma das paradas e levando os seus versos, o seu espírito e a sua voz.
É sua chance de dar uma pausa para a poesia.

Cobertura completa do evento aqui.

É hora(!)

  • por Lorreine Beatrice
  • março 12, 2008 10:57 PM
  • Relicário

Um convite ao olhar inteiro.

Capa.jpg

Assim é Relicário, livro que será lançado nesta quinta-feira (13 de março) à noite, na Fundaç

ão Cultural de Blumenau - SC.

Com vários poemas e algumas crônicas, Relicário fala das pequenas preciosidades da vida. Um momento, uma paisagem, uma emoção. Tudo o que vale à pena de verdade e passa despercebido. 

Quem estiver por perto está convidado a passar na Fundação e conferir. Haverá ainda outras apresentações culturais e exposições.

Quem não puder estar presente, pode aproveitar a poesia deste instante mesmo assim, como diz os versos de Drummond.

 

Gastei uma hora

pensando um verso

que a pena não quer escrever

no entanto, ele está cá dentro

inquieto, vivo

ele está cá dentro e não quer sair

mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira

Brincadeira de Criança

Quando vou a escolas, conversar com crianças de 6, 7, 8 anos, costumo perguntar a elas qual o gosto mais gostoso que existe. As respostas, é claro, percorrem os evidentes caminhos do paladar: chocolate, brigadeiro, macarrão, sorvete, batata-frita.

É neste momento que desperto olhinhos curiosos quando digo que as palavras também têm gosto. Gosto?! Isso mesmo, as palavras têm gosto, forma, música e cor, dependendo da boca que as diz ou da mente que as lê.

Quando criança descobri isso. 

candy.jpg

Gostava das palavras que estavam na prateleira mais alta da estante - fora do meu alcance e, por isso mesmo, mais interessantes.

Vertigem soava-me como palavra lilás, com um leve sabor doce que logo ganhava o ar, transformando-se apenas em aroma. Rompante me era parecido o efeito, apesar do gosto mais forte e amargo... A forma lembrava uma flecha, sempre que eu fechava os olhos e pronunciava rom-pan-te. Solstício era palavra solta, sem início nem fim e que deixava um sabor bom na boca, com aquela vontade de quero mais. Com suas consoantes cadenciadas, pirulito era brincadeira de bate-bate pra mim.

As palavras eram bonecas e espaçonaves, com cores e expressões que me permitiam viajar por sensações desconhecidas - sensações trazidas nos entremeios das letras. Era o começo do poetar.

Poesia tem dessas brincadeiras e é preciso ser um pouco criança pra perceber que as palavras não se gastam, desde que se invente novos jeitos de brincar.
E você, já pensou em brincar com palavras?

Comece tirando da gaveta as palavras que você não usa há tempo, aquelas que você não sabe mais que cor têm. Combine-as com as cotidianas e olhe-se no espelho para ver que sensações elas lhe trazem. Se fica inverno ou verão. Se são fortes ou fracas. Diga. Diga uma palavra azul que traga frio e combine com outra que seja vento.

Qual é a palavra mais gostosa pra você?

Gira vento, gira gira

05.jpg 

Enquanto o vento brinca em meio às folhas, a poesia também movimenta as palavras. Em sua dança, vai inventando a melodia. E basta um sopro para tocar a gente [no fundo da alma].

Foi assim que surgiu a idéia de fazer cata-ventos com poemas. Uma vontade de colorir o cotidiano, de fazer com que um objeto simples pudesse apontar para os nuances da vida.

A idéia se transformou em uma exposição, batizada de CataVersos, que acontece até sexta-feira (14 de março), no Shopping Neumarkt [Blumenau-SC].

  04.jpg

Desde a abertura, a exposição já fez diversas crianças correrem com seus cata-ventos poéticos pelos corredores e dezenas de adultos, um pouco envergonhados, disfarçarem na hora de pegar o seu.

Quem estiver por perto e quiser garantir um, está mais que convidado. Afinal, a poesia é para todos.

Como esta, abaixo, de Marcelo Marzola Leite.

 

Triste é meu destino
caminhar sem lei
uivar sem dono
(Prefácio de uma poesia- Vento)

PALAVRAS AO VENTO

f a z
s u s penso
s e u s
d e s vi o s

p a s s a
a s u s s urrar

de ar.
me refresca.

 

Para saber mais sobre a exposição, clique aqui.

Um pouco de teoria não faz mal a ninguém...

livro.jpg

Você já deve ter se perguntado: afinal o que é poesia? Apenas um bocado de palavras bonitas não deve ser.

Alguns sabem bem que poesia é mais do que uma forma textual de ritmo e comprimento exatos. Mas então, como algo tão universal quanto a poesia, tão presente na existência humana, pode ser definida em um único conceito?!

Para compreendermos uma denominação com tanta abrangência, necessitamos retornar ao tempo. As origens do termo poesia vêm do grego, poesis, originada de poiein, que significa criar, imaginar. Os latinos conheciam a poesia como oractio vincta, linguagem travada e versificada, diferente de oractio prorsa, conhecida como um discurso construído de modo direto e livre.

Há quem pense, que poesia é tudo o que se expressa em versos (cada linha do poema é um verso). Identificar a poesia é, contudo, algo mais interior que exterior. Pensando nisso, estudiosos germânicos chegaram à outra forma sedutora de obviar a questão: a poesia seria o núcleo residual e essencial de toda e qualquer manifestação artística. Desta forma, a poesia estaria presente na música, nas artes visuais, na dança, na arquitetura e todos os artistas se tornariam poetas. O pensamento não estava errado, o problema é que, desta forma, a poesia seria eliminada como forma singular de arte, reduzindo a si todas as manifestações artísticas e desindividualizando-as (ufa!).

Uma maneira mais abrangente e nem por isso menos adequada é a que envolve os conceitos do sujeito (o "eu") e do objeto (o mundo ao redor). A partir da observação da realidade, o poeta pode se dirigir para dentro de sua realidade interior, procurando o que o revela enquanto ser criativo e o que o distingue dos semelhantes.

Desta forma, a poesia percorre dois eixos: é o espelho do mundo exterior refletido no mundo interior (do poeta) e é o espelho do mundo exterior refletido no mundo interior (do leitor).
A poesia deve ainda sugerir mais do que definir, para isso, necessita das palavras sem sua roupagem gramatical e lógica. A palavra poética deve levar em conta o ritmo, a sonoridade, sem se afastar por completo do sentido. Falar de palavra é falar de texto. Daí adentramos no âmbito do poema, a manifestação textual da poesia, seu corpo transcrito em palavras. 
Sim, poesia e poema são coisas distintas, mas que estão constantemente interligadas. Só que isso já é assunto para outra conversa.

Cabe a nós descobrir e cultivar outras manifestações da poesia que não se restrinjam no poema. Poesia é uma chance de olhar para dentro de si. De alimentar a transformação, num constante estímulo-resposta ao planeta.

Experimente.

O que é poesia pra você?

Um canto de várias vozes...

O pausa está no ar há tão pouco tempo (ainda passando por alguns ajustes, como não poderia deixar de ser), mas já conta com contribuições pra lá de especiais.

Uma delas é da escritora Isnelda Weise, que tão logo ficou sabendo deste blog, já enviou um poema-convite.

PAUSA PARA POESIA

[por Isnelda Weise]

 

Só um minuto, um período

Um momento  de introspecção

Eis que a vida pede um tempo

Uma  pausa pra emoção.

 

A poesia ora latente

Nos caminhos mais banais

Teima em rogar passagem

Aos que sufocam seus ais.

 

Venham todos: é um convite

Para uma causa sem dor

E o ingresso só exige

Um pacto que lhe retorne

À magia do encantador.

A Grace, do Desabrochar, amiga e expert em web (que me ajudou um bocado com tudo por aqui), também fez um post especial falando um pouquinho do Pausa e de Relicário.

Obrigada às duas. Sem o envolvimento de pessoas assim, nada seria possível.

E você, já deu uma pausa hoje? Para a poesia?

Musa, Mulher, Monalisa [Antes tarde do que nunca]

Picasso.jpg

(de Picasso)

Mulher e poesia parecem amigas há um bom tempo. Algo tão próximo como o avião e suas asas, tão definitivo quanto Romeu e Julieta. Dos sonetos românticos de Machado aos conservadores e melancólicos de Shakespeare. Das belas de Vinícius às sedutoras de Neruda. Para os autores clássicos e contemporâneos, a mulher representa inegavelmente uma das maiores fontes de inspiração.
 
Não apenas inspiração, mas também atuação. Cecília já dizia que Eu deixo aroma até nos meus espinhos/ao longe, o vento vai falando de mim ou Hilda confessava Não sabem de seus passos os meus pés/Nem de mim mesma sei. Cora Coralina afirmava És (mulher) superior àqueles que procuras imitar. [...] Em ti está presente a humanidade.
 
A proximidade ao Dia Internacional da Mulher deixa claro que sensibilidade e beleza tão femininas estão devidamente ressaltadas nos versos espalhados por todo o mundo. Lendo alguns deles, contudo, nem dá pra perceber que a mulher já ultrapassou lutas e venceu desafios. E ainda continua a lutar no dia-a-dia, muitas vezes, para ser apenas ela mesma (o desejo de ser tudo sem deixar de ser única).
 
Talvez por isso as mulheres continuem tema freqüente da poesia. Sua capacidade de se reinventar é referência constante ao poeta. Mesmo que for para dizer o inevitável:
 
Tudo tudo
Quase tudo
Como se a mulher fosse
O instrumento
A corda afinada
Escolhida pela natureza
Para fazer vibrar a música da vida.
 
(versos de Carlos Higgie)

Dê uma pausa para a poesia

Você não gosta de falar sobre sua própria vida. Tem medo de se perguntar se é feliz, porque é orgulhoso demais para admitir uma resposta negativa. Você não confessa que tem fraquezas, que esqueceu o dia do seu aniversário de namoro, que também não sabe o que esperar do futuro. Você não abraçou ninguém hoje. Você não se lembra do que comeu no almoço nem da última vez que viu o pôr-do-sol.

E você ainda diz que está vivendo. Sim, o dia-a-dia é um pouco corrido, mas estou bem - vivendo. Quando você vê é meio-dia, chegou sexta-feira, está no Natal! É veloz o jeito de passar pela vida e as pausas que você se permite são cada vez menos constantes. O café no meio do expediente é adoçado pelos problemas do trabalho, o fim de semana com a família é compartilhado com preocupações alheias e o agora é quase sempre um misto de futuro e passado... tão pouco presente.

Uma pausa é tão somente um instante para olhar - ao mundo ou a si mesmo. É aquela vontade de organizar a vida como se fosse uma estante e de transformar a existência num filme - com direção, cortes e trilha sonora nas melhores cenas.

E por que exatamente a poesia no meio disso? Porque poesia é muito mais do que os versinhos que você decorou para aquele jogral da escola. É mais do que aquele poema copiado do livro de português para uma carta à sua primeira namorada. Vai além do que está no papel e do que a letra da sua música preferida.

Poesia também é sua bagagem de vida, o jeito que você percebe o mundo.  Aquele sorriso que você nunca esqueceu, a injustiça que você presenciou e ainda não conseguiu tirar da cabeça, o primeiro raio de sol que bateu no seu rosto hoje de manhã. Entendeu agora por que poesia tem tudo a ver com as pequenas pausas da vida?

Experimente dar uma pausa a você mesmo.

Tente. Perceba. Escreva. Qual a poesia do seu agora?

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